Junho de 2013, 5 anos depois – Uma retrospectiva através da arte

Em 2018, assumi o desafio de ser um dos co-curadores da exposição Junho de 2013 – 5 anos depois, realizada no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica sob coordenação geral de Daniele Machado e Gabriela Lúcio. Falo em desafio porque realizar uma exposição que tenta historicizar fatos tão recentes, um processo histórico ainda em curso, não é tarefa fácil.

Devo assinalar que não tenho medo da história do tempo presente. Lido com este conceito há alguns anos em minhas pesquisas sobre arte brasileira no século XXI. Acredito que o presente pode ser pensado historicamente e não deve ser objeto de reflexão apenas para jornalistas e críticos, mas também historiadores (da arte), categoria na qual me enquadro.

Junho de 2013 – 5 anos depois não tenta buscar respostas sobre os acontecimentos dos últimos cinco anos, mas levantar questionamentos. Balanço é o termo que melhor designa a proposta da exposição. Desde as jornadas de junho, o cenário político brasileiro mudou drasticamente. Diante da grande quantidade de acontecimentos marcantes, como os protestos pelos 20 centavos, o golpe, grandes eventos esportivos, processos de gentrificação e a ascensão de fascistas e líderes religiosos ao poder, é necessário parar e olhar retrospectivamente e criticamente para os últimos cinco anos. Embora este processo histórico ainda esteja em curso e não tenhamos ideia do que ainda pode acontecer nos próximos dias, sobretudo após as eleições presidenciais, é importante trazer à memória os acontecimentos recentes.

Alguns trabalhos presentes na exposição lidam de forma mais direta com o contexto de junho de 2013, como Turbulência, de Cecília Cipriano, um dos vídeos que abrem a mostra. As imagens exibem uma bandeira do Brasil, desenhada com sal grosso sobre uma superfície, que lentamente se desintegra e se reconstrói, enquanto se ouve, ao fundo, gritos de manifestantes. Mas grande parte da exposição se dedica aos acontecimentos posteriores às jornadas de junho – como suas consequências ou não – e aos processos de transformação que ocorreram na cidade nos últimos cinco anos, e é a este recorte que gostaria de me ater neste texto.

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Cecilia Cipriano, Turbulência

Meia Casa, Meia Vida, de Guga Ferraz, faz referência a um programa de moradias populares do governo federal, “Minha Casa, Minha Vida”. Esse trabalho é composto por uma maquete e desenhos da metade de uma casa, que traz à memória as centenas de moradias demolidas na favela da Vila Autódromo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, durante as obras dos Jogos Olímpicos de 2016, um dos casos de remoção mais polêmicos da gestão de Eduardo Paes. Meia Casa, Meia Vida faz referência mais direta ao caso de Luiz Geraldo dos Santos, um pedreiro de 52 anos que tem sua casa demolida pela metade, quando sua ex-mulher aceita a indenização oferecida pelo imóvel e a prefeitura derruba apenas a sua metade, deixando intocável o puxadinho que havia sido feito por Luiz.

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Guga Ferraz, Meia Casa Meia Vida
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Casa de Luiz Geraldo dos Santos, na Vila Autódromo

A gestão de Paes foi o período com maior número absoluto que remoções na cidade, com mais de 70 mil contabilizadas até agosto de 2015, data de uma publicação do El País[1], ultrapassando o número de remoções do governo de Carlos Lacerda (30 mil remoções) e de Pereira Passos (20 mil remoções).

Lidando com o mesmo contexto, é apresentada a série de desenhos da artista argentina radicada no Rio de Janeiro, Emilia Estrada, realizados com técnicas de desenho arqueológico sobre escombros de diferentes materiais – que são exibidos ao lado das imagens – coletados em lugares do Rio de Janeiro que passariam por obras de revitalização nos últimos anos: a Avenida Rio Branco, a Zona Portuária e a Vila Autódromo. Revitalização é uma das palavras mais presentes dos discursos políticos nos anos imediatamente anteriores aos grandes eventos sediados pelo Rio de Janeiro e Brasil: Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Porém, como afirma Benjamin Moser em seu livro Autoimperialismo, essa palavra ganharia um sentido macabro ao ser aplicada em uma área que fora construída, literalmente, sobre ossos humanos: o cais do Valongo. Moser denuncia uma tradição brasileira de escolher monumentos no lugar de infraestrutura, como maneira de impressionar estrangeiros e fomentar o enriquecimento de políticos.

Ao utilizar uma técnica da arqueologia para lidar com vestígios de um período recente, Emilia coloca em discussão a ideia de história do tempo presente ou ainda de arqueologia do presente, o que torna este um trabalho fundamental para a exposição, que também faz do presente um objeto de estudo.

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Emilia Estrada, Av. Rio Branco

Os controversos projetos de reestruturação urbana também são tema de Obra em obras, de Camilla Braga, que consiste na criação de um suposto canteiro de obras, cercado por uma faixa de interdição laranja, dentro do qual não se vê nada além de um espaço vazio. O trabalho de Camilla se relaciona diretamente com o vídeo de Emilia Estrada, localizado ao lado, que documenta um percurso ao longo da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, durante as obras de construção do VLT (veículo leve sobre trilhos), onde se vê a todo momento faixas de interdição similares às da intervenção realizada por Camilla no espaço expositivo. Situada na passagem entre as duas galerias do térreo do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, a Obra em obras de Camilla interfere no trânsito do público entre uma sala e outra e chama atenção para as obras realizadas na cidade no contexto da preparação para os grandes eventos esportivos – muitas até hoje inconclusas –, assim como para a situação caótica gerada pelas mesmas, que dificultaram – e ainda dificultam, no caso das obras inconclusas – o trânsito e o acesso a certas partes da cidade. Obra em obras questiona os reais propósitos e benefícios dessas reformas à população.

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Camilla Braga, Obra em Obras

Ainda dentro desse contexto estão os trabalhos apresentados pelo Atelier Sanitário (Daniel Murgel e Leandro Barboza), que fazem parte da série Mobiliário Maravilha. Trata-se de mobiliários construídos com restos de materiais das obras do projeto Porto Maravilha, realizado na Zona Portuária do Rio de Janeiro, que removeu moradores pobres daquela região sob o pretexto de embelezamento e revitalização, no contexto dos preparativos da cidade para os jogos olímpicos de 2016. Murgel e Barboza, que vivem e trabalham naquela região, acompanharam de perto suas transformações. Com a apropriação de elementos descartados de um projeto de reforma urbana carregado de polêmicas, os artistas criaram os mobiliários que podem ser utilizados pelo público da exposição e questionam qual foi o “legado olímpico” para a cidade.

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Atelier Sanitário (Daniel Murgel e Leandro Barboza), Mobiliário Maravilha

O mesmo questionamento é levantado pelo coletivo Seus Putos, que apresenta o registro de uma intervenção realizada na inauguração do Museu do Amanhã, também na Zona Portuária, como parte do projeto de revitalização. Num país que tem sua história recalcada, onde museus e bibliotecas são fechados por falta de investimento – ou ainda incendiados, como o recente caso do Museu Nacional – é realizado um projeto milionário cujo nome guarda ecos do “País do Futuro”, como afirma Benjamin Moser. O coletivo Seus Putos, com seus trajes futuristas e seus “corpos estranhos”, levantam placas e uma bandeira com a palavra “gentrificado”, denunciando o processo que levou à remoção de pessoas empobrecidas daquela região e questionando os reais propósitos da construção do museu.

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Seus Putos, Putas Maravilhas

Para finalizar, é relevante pensar como essas histórias foram registradas e como as informações circulam atualmente. Ao investigar motins populares do início do século passado, como a Revolta da Vacina, por exemplo, nos depararíamos com charges que circulavam na imprensa da época. Já ao entrar na exposição Junho de 2013 – 5 anos depois, o público encontra uma série de memes que são publicados no Instagram da artista Aleta Valente (@ex_miss_febem2). O conteúdo não necessariamente tem relação com o tema da exposição, mas são representativos de nossa relação atual com as imagens – da banalidade a seu uso como ferramenta ideológica. O meme, além de ser hoje um dos principais meios de difusão de informações e opiniões sobre questões políticas, alimenta o debate sobre as mídias alternativas, que desenvolveram importante papel nas manifestações de junho de 2013 e nas posteriores. As Jornadas de Junho começaram na internet, como movimentos descentralizados, sem liderança, e ganharam projeção igualmente graças à internet, com a circulação de imagens que viralizaram fazendo com que a grande mídia, que até então fechava seus olhos, deixasse de ignorar o que ocorria nas ruas – embora as coberturas jornalísticas das emissoras de TV sejam questionáveis e as manifestações ocorridas em áreas periféricas ainda tenham ficado restritas às mídias alternativas.

Junho de 2013 é um marco histórico, embora os movimentos que ali ganharam projeção sejam desdobramentos de uma conjuntura que já tomava corpo nos anos anteriores. De lá para cá, foram grandes as transformações na cidade, na política, nos modos de se relacionar e até de se manifestar opiniões políticas. A arte, com sua natureza questionadora, também tem papel relevante nesse processo, o que justifica a realização da exposição. Importantes coletivos surgiram nos últimos cinco anos, como o Tupinambá Lambido, articulado após o golpe de 2016, que embora não esteja presente na exposição, exibiu o filme que documenta suas ações no cineclube que constituiu uma programação paralela no auditório do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, assim como o seminário que contou com diversos artistas, pesquisadores e ativistas. Atuando nas ruas do Rio de Janeiro, o Tupinambá Lambido dissemina grandes cartazes que denunciam e provocam reflexões sobre as atrocidades que testemunhamos no atual contexto político. Na exposição, no cineclube ou no seminário, Junho de 2013 – 5 anos depois propõe, sobretudo, discussões sobre o tempo presente, sobre as incertezas do futuro e sobre a necessidade de revisitar criticamente o passado, por mais recente que ele possa parecer.

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Tupinambá Lambido

[1] EL PAÍS, Remoções na Vila Autódromo expõem o lado B das Olimpíadas do Rio. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/20/politica/1434753946_363539.html

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